Sábado, 30 de Maio de 2009

(Re)avaliações

 

Novos desvios e cruzamentos

(in DNMais, suplemento do Diário de Notícias, 15.05.99)

 

No melhor jazz actual, nem sempre o que parece é. Pelo contrário: Tim Berne e Mark Turner, cada um à sua maneira, aí estão a prová-lo

Ao serem avançadas desapaixonadas e objectivas apreciações críticas a muito do jazz que, por obra e graça das exigências do mercado, se tornou quase omnipresente a partir dos anos 80  (com prolongamentos detectáveis em boa parte dos anos 90), a utilização do termo «revivalismo» para qualificar a corrente neo-bop «imposta» a muitos jovens músicos emergentes, já não prima propriamente pela originalidade.

Mas deve dizer-se que muitos dos exemplos musicais nascidos como contraposição a essa tendência conservadora não primaram, também eles  (apesar da credível generosidade das intenções), pela aposta num refrescamento particularmente estimulante, capaz de constituir saudável redenção face às tentações do pecado, e não deixando, pelo seu lado, de se constituírem em fenómenos de um outro tipo de «revivalismo», agora em relação a modelos como o do free-jazz. (...)

À revelia de visibilidades enganadoras ou recusando ribaltas fáceis, tem surgido, nos últimos anos, um número cada vez mais significativo de músicos inquietos e criativos que um certo maniqueísmo analítico persiste em situar em campos opostos de imaginárias barricadas mas que nos habituámos a surpreender, na diversidade e confluência das suas experiências, como protagonistas de (re)avaliações críticas daquelas tendências «revivalistas».

Começando hoje por um dos mais interessantes valores actuais do jazz moderno de raiz clássica  – o saxofonista-tenor Mark Turner –  é fora de dúvidas que o seu último álbum publicado na Atlantic e intitulado In This World se caracteriza, precisamente, pela subversão de algumas das coordenadas e pressupostos do classicismo moderno.  Ouça-se, por exemplo, essa espécie de «partita para saxofone solo» através da qual Turner introduz o belíssimo clássico You Know I Care, de Duke Pearson, para se perceber que estamos nos antípodas da cópia servil de modelos (ante)passados.


Mas é acima de tudo na infraestrutura harmónica das peças de Mark Turner que um novo tipo de organização e encadeamento dos centros tonais acaba por ser determinante ao nível dos brilhantes acontecimentos melódicos da superestrutura.  Neste sentido, quer Mesa quer In This World, demonstram à evidência como o desconjuntar das ideias-feitas neste domínio constituem o próprio fermento de uma outra respiração e novidade do discurso temático e da improvisação sujeita a mote.  E mesmo um tema tão exigente e complexo como Lennie Groove – essa verdadeira homenagem ao génio-fora-de-tempo que foi Tristano –  ultrapassa em muito a mera referência evocativa para se transformar em algo de mais profundo e inovador já que, chegado às improvisações, o ouvinte nem sequer tem o apoio reconhecível dos acordes de base dos velhos standards que serviam de base às fabulosas paráfrases do mestre.

Diga-se, por fim, que este grupo de Mark Turner, contando ainda nas suas fileiras com o brilhantismo de Brad Mehldau (piano), Kurt Rosenwinkel (guitarra) ou Brian Blade (bateria) se revela afinal ímpar nesta área, ainda tão frutificante, do jazz actual, não constituindo no seu caso o envolvimento contratual com uma major qualquer empecilho à estimulante e livre subversão do statu quo.

Ponto de partida totalmente diverso é aquele que resolveu escolher, pelo seu lado, outro saxofonista, Tim Berne, com o seu Bloodcount – que uma recorrente moléstia me impediu de ouvir em recente concerto realizado na Aula Magna da Reitoria de Lisboa.

Não constituindo, de forma alguma, um sucedâneo para a audição ao vivo deste grupo, o excelente álbum Saturation Point que Tim Berne publicou recentemente [1999] é, entretanto, imprescindível para se compreender uma outra manifestação de inconformismo criativo no panorama do jazz contemporâneo.

Recusando as expressões de um radicalismo fácil e artificial, que se revelaria por completo patético e estéril porque deslocado no tempo, Tim Berne opta, antes, por um novo entendimento estético:  a constante conjugação dialéctica entre a invenção individual espontânea e a improvisação colectiva tendencialmente aleatórias  (ambas sem dúvida sujeitas a pré-entendimentos tácitos entre os músicos envolvidos)  e a cíclica produção de formulações temáticas mais ou menos extensas mas sempre altamente complexas e rigorosas na sua configuração e enunciação, apenas nestes momentos surgindo um qualquer constrangimento de carácter tonal.

Tal é o caso de Screwgun - espécie de suite com momentos agitados, reflexivos e de novo agitados -  ou do título de abertura, Is That a Gap?, nos quais os uníssonos temáticos «reconhecíveis» nascem naturalmente das controladas explosões caóticas, para de novo em outras se voltarem a dissolver.

Por outro lado, esse sem dúvida irónico Snow White revela-se um dos momentos singulares para o estímulo da transfiguração tímbrica e para o sublinhar de certas transgressões instrumentais, com a frequente utilização dos harmónicos nos dois sopros  (Chris Speed ou Tim Berne)  a ser habilmente conjugada com os do contrabaixo  (Michael Formanek)  e sempre estimulada pelas novas concepções percussivas de Jim Black.


Publicado por Manuel Jorge Veloso o_sitio_do_jazz às 15:28
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